Uma incursão pelo Beneficência Portuguesa, o hospital com 201 leitos e só dois pacientes

Quem passa pela Avenida Independência, em Porto Alegre, estranha a calmaria em frente ao Hospital Beneficência Portuguesa. A poucos metros dali, a concentração de ambulâncias e pessoas no Complexo da Santa Casa chega a trancar o trânsito. O motivo para tamanha disparidade é que, acometida por dívidas e histórico conturbado, a instituição enfrenta uma grave crise que levou a quase total paralisia dos 201 leitos. Nesta quinta-feira (10), uma reunião com o Grupo Hospitalar Conceição sobre a possibilidade de locar leitos acabou sem definição — apenas ficou marcado um novo encontro, em Brasília.

As portas de vidro na entrada principal de um dos hospitais mais antigos da Capital, fundado em 29 de junho de 1870, abrem-se poucas vezes ao dia. Quem as atravessa encontra uma recepção praticamente vazia, com apenas uma recepcionista. Às vezes, o atendimento fica para o segurança. Não há necessidade de retirar fichas ou aguardar ser chamado. Quem passa por ali normalmente já é conhecido da equipe: são funcionários que não recebem salários há nove meses, membros da diretoria, profissionais que integram a auditoria financeira e consultoria técnica ou familiares dos dois únicos pacientes internados.

Um pouco mais à direita, a segunda porta de vidro demonstra que um dos setores já está desativado. É o Pronto Atendimento Convênios, que recebia pacientes de diversos planos de saúde, mas principalmente do IPE. No local, nove leitos, dois consultórios e uma sala de triagem estão com as luzes apagadas. Reformado e inaugurado em 2014, o espaço não recebe pacientes há quase sete meses — a última escala de plantão foi em 31 de outubro de 2017. Na mesma ala, o corredor destinado a endoscopia também está fechado.

Neste mesmo andar, o segundo dos seis pavimentos do prédio centenário, encontram-se os dois únicos pacientes internados. O mais antigo deles está em tratamento desde dezembro.

Com sequela neurológica por tentativa de suicídio, o homem de 48 anos precisa anticonvulsivantes e cuidados gerais. Está internado pelo IPE por não ter condições de ser medicado em casa. Já conhecido no hospital, passeia de cadeira de rodas pelos corredores na companhia de familiares.

A outra, uma mulher de 52 anos, faz do quarto uma extensão de sua vida. Um mês fica internada e, no outro, recebe cuidados em casa. Ela precisa de analgesia para tratamento de dor crônica e lúpus eritematoso sistêmico. Também encaminhada pelo IPE, está internada para otimizar tratamentos e garantir o controle da dor.

Em um espaço com 12 leitos, uma enfermeira se dedica aos dois únicos pacientes. Mas entre um medicamento e outro, transparece a preocupação com a sua própria sobrevivência. Já são nove meses sem salário. Além dela, cerca de 120 funcionários amargam a incerteza de quando receberão os pagamentos, pendentes desde agosto de 2017. Alguns já não conseguem pagar o aluguel e estão morando de favor em casa de familiares e amigos.

Responsável pelo laboratório de análises clínicas do Beneficência, um funcionário que prefere não se identificar lamenta a atual situação. Sem insumos para realizar exames, o biólogo-biopatologista passa os dias guarnecendo o local. Deixou o emprego anterior com o projeto de fazer o hospital retomar o prumo. O laboratório chegou a ter capacidade para 110 mil exames por mês. Mas o ápice foi de 16 mil exames, em 2016.

— Funcionávamos 24 horas por dia. Hoje, estamos parados. Faltam reagentes — detalha.

Ambulatório vazio e cozinha interditada

No andar de baixo está o ambulatório que era destinado às consultas eletivas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Uma entrada especial, também pela Avenida Independência, priorizava o acesso da população encaminhada pela rede pública de saúde. A porta, hoje, está chaveada. O último atendimento no local foi em setembro do ano passado. Desde lá, os consultórios e os 65 leitos estão vazios.

No mesmo andar, ainda está a farmácia, que abastece o hospital, e a cozinha. Essa última, interditada pela Vigilância em Saúde desde o ano passado por inadequações. Conforme Augusto Veit, presidente do Beneficência Portuguesa, a reforma da cozinha é prioridade e já está em andamento.

— Precisamos dela liberada para poder aumentar o número de pacientes acolhidos — destaca.

Mais perto do ambulatório tem a capela, em homenagem a São Pedro. Uma placa obsoleta avisa que as missas são todas as quartas-feiras, às 12h30min. Mas parece que até as celebrações deixaram de acontecer. Ninguém sabe o paradeiro da chave que dá acesso à capela. Uma imagem de Nossa Senhora, no corredor que antecede o altar, é a única opção para quem precisa fazer uma prece. Alguns até resolveram depositar o pedido escrito aos pés da estátua – e os papéis seguem lá, à espera de um milagre.

Mas o que mais chama atenção neste andar são as 50 camas hospitalares, todas novas e ainda embaladas, que chegaram ao Beneficência Portuguesa na segunda-feira (7). Empilhadas em um dos corredores, as camas foram compradas com recursos de emendas parlamentares, destinadas pela bancada gaúcha na Câmara federal em 2016 no valor de R$ 9 milhões. O projeto inicial previa R$ 18 milhões, sendo metade em recursos para obras de expansão e a outra em equipamentos.

Estão na lista de compras 200 camas hospitalares, 29 condicionadores de ar, 10 cadeiras de rodas adulto, 200 poltronas hospitalares, cinco carros de emergência, quatro macas de transferência, 20 purificadores refrigerados, sete mesas cirúrgicas elétricas, endoscópio rígido e flexível, além de uma série de outros equipamentos cirúrgicos.

Abaixo do ambulatório, no térreo, o aspecto de hospital fica para trás. Com janelas danificadas que dão para a escadaria ao lado da Igreja da Conceição, é possível ver o refeitório dos funcionários, que está praticamente abandonado; o setor de Recursos Humanos (RH); um grande gerador de energia antigo; e a sala onde fica a agência transfusional vinculada ao Hemocentro, atacada por criminosos na madrugada do último domingo (6). Os bandidos roubaram dois condicionadores de ar, três motores de freezers e geladeiras, um computador e duas torneiras. Sem os motores, as cinco bolsas de plasma foram perdidas.

Saindo do prédio, pela entrada de serviço, várias caixas de madeira chamam atenção. Elas estão sob o telhado que dá acesso ao setor de manutenção. Uma das caixas, a maior, desperta ainda mais a curiosidade. Dentro dela um sistema de microscopia cirúrgica com vídeo angiografia avaliado em R$ 1,2 milhão. Ele também foi adquirido por meio de emenda parlamentar e chegou há cerca de um mês. Devido ao tamanho, não pode ser colocado no interior do prédio. Precisou ficar lá, do lado de fora, quase que ao relento. A direção garante que, como a verba é do SUS, o equipamento não deveria ser instalado no bloco cirúrgico se o hospital perdeu o contrato com a prefeitura. Diante do impasse e do futuro incerto do Beneficência, o equipamento – que seria o segundo em funcionamento num hospital gaúcho – segue encaixotado.

UTI com equipamentos de ponta não é usada

Voltando ao prédio, um elevador antigo daqueles com porta de ferro sanfonada, leva até o terceiro piso. Lá, um bloco cirúrgico está fechado. Só uma funcionária tem acesso, por meio de biometria. As digitais de todos os outros servidores, inclusive médicos, foram deletadas. Dentro, oito salas cirúrgicas, sendo seis aptas para procedimentos, além de 16 leitos de recuperação. Um pouco mais à frente, uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com 17 leitos está no aguardo de pacientes. O último atendido no local recebeu alta em outubro de 2017. No espaço, equipamentos de última geração. A UTI do Beneficência era considerada uma das melhores do Estado em estrutura. Lá, respiradores encontrados apenas em hospitais de referência – e adquiridos também por emenda parlamentar – estão há sete meses sem serem utilizados. Uma ala de internação, com 20 leitos, também está com as luzes apagadas. Não há internados.

É possível perceber que uma parte do terceiro andar está interditada. Ali seria construída mais uma UTI, com outros 14 leitos, onde seriam usados os novos equipamentos. O projeto está pronto, mas não saiu do papel devido à falta do repasse dos outros R$ 9 milhões. O local virou criadouro de pombos.

O elevador leva para o quarto andar, recentemente reformado e pronto para acolher pacientes. São 22 leitos distribuídos em quartos com frigobar, TV de plasma e banheiros individuais. Além de dois quartos com cinco camas cada, para acompanhamento de pacientes que saíram da UTI e requerem atenção especial. Parece um outro Beneficência, se não fosse a constante sensação de vazio.

O quinto andar seria uma cópia do quarto. Mas a reforma que iniciou em 2015 foi interrompida logo no início de 2016. O pavimento é um canteiro de obras, com fiação aparente em contraste com paredes cuidadosamente rebocadas. Cerca de 75% da obra está concluída.

O sexto e último pavimento é um resumo do paradoxo Beneficência Portuguesa. São 26 leitos herdados dos tempos áureos do hospital, com imagens religiosas enfeitando as paredes cuja pintura ainda está nítida. Leitos esses inacessíveis devido às cem novas camas hospitalares estocadas nos corredores.

— Estamos empenhados para que o hospital volte a receber pacientes, indiferente se for com a bandeira do Beneficência, do Conceição ou de outro grupo. Queremos que essa estrutura não se perca e que os leitos possam voltar a salvar vidas — resume Augusto Veit.

Fonte: Gaúcha ZH